Alguns autores (Pevsner, 1980; Argan, 1992; Heskett, 1997 e Sparke, 1987) atribuem o surgimento desta profissão ao sistema de divisão de trabalho, que culminou com a Revolução Industrial e que separou as ações de criação e confecção do produto, antes integradas na atividade do artesão, em momentos e sujeitos diferentes.
Porém, segundo Dormer (1993), sua consolidação e crescimento como atividade profissional autônoma somente ocorreu a partir de 1945, graças à versatilidade dos designers em acompanhar as mudanças que ocorreram, e que continuam ocorrendo, no mercado, na tecnologia e na manufatura do mundo do pós-guerra.
A HISTÓRIA
A história do design não se apresenta de forma única e uniforme nos diferentes países em que se desenvolveu, uma vez que as características de desenvolvimento sócio-econômicas e culturais de cada lugar imprimiram uma personalidade distinta aos profissionais ligados a esta área.
Mas a tradição tem consolidado uma classificação, que aparece de forma constante nos debates ligados à atividade de projeto de produto e que dividem os designers em dois pólos:
Os que defendem o design como uma atividade predominantemente ligada à arte
E os que defendem o design como uma atividade mais voltada às questões tecnológicas.
Esta divisão aparece com diferentes denominações em obras de diversos autores, que nem sempre a defendem — uma vez que existem abordagens que não consideram pertinente esta polarização — mas admitem sua existência.
Dormer (1995) fala em design acima da linha e design abaixo da linha. O primeiro está ligado aos aspectos visuais do produto, ao estilo, enquanto que o segundo diz respeito à parte estrutural e ao funcionamento do mesmo.
Manzini (1993a) comenta a existência do designer arquiteto, preocupado com valores sociais, com expressões lingüísticas e considerações estéticas, apresentando menor domínio na área técnica e do designer engenheiro, cujos valores estão voltados para a melhoria técnica e econômica do produto, dominando os aspectos da produção e da tecnologia.
Dijon de Moraes (1997) cita Mendini, designer italiano que denomina de design caldo [quente] o design que tem afinidade com a arte e o artesanato e de design freddo [frio], aquele mais voltado para a tecnologia.
No modelo de produção artesanal, que vigorou durante o período medieval, destacava-se a figura do artesão como responsável pela criação da forma do produto e também como possuidor dos conhecimentos técnicos para materializá-la.
Estavam reunidas na mesma pessoa as ações de projetar e confeccionar o produto. A separação entre projeto e manufatura foi decorrente do crescimento do comércio no final da idade média, quando se iniciou a transição para uma organização industrial capitalista, mas ainda baseada em métodos artesanais de produção.
Nesse período surgem na Europa grandes oficinas com o objetivo de atender as demandas das cortes, igrejas e dos comerciantes mais abastados.
A expansão constante do comércio criou atitudes competitivas entre as oficinas, obrigando-as a diferenciar seus produtos para atrair o interesse dos consumidores.
Dentro desse contexto, o design passou a ser visto como uma novidade capaz de impulsionar vendas, adquirindo grande importância para o mundo capitalista
Servindo como veículo de comunicação estética e social, sua interferência resumia-se então às questões formais, proporcionando ao produto um “toque artístico” e o status de objeto de moda (Sparke, 1987).
Com a revolução industrial inglesa, que aconteceu na metade do século XVIII, estimulada pelo enriquecimento da burguesia britânica e conseqüente demanda de novas mercadorias, a questão da moda adquiriu ainda maior importância, pois o gosto passou a ser considerado fator de ascendência social.
As manufaturas tinham o cuidado de produzir mercadorias esteticamente aprovadas pelo gosto da aristocracia.
Tudo o que a aristocracia gostava era logo copiado pela classe burguesa, e as classes mais humildes, por sua vez, copiavam a burguesia.
A importância da moda como elemento promotor de vendas foi um fator vital para que o design se firmasse dentro do capitalismo.
Porém, a contribuição do design neste período ocorria principalmente no aspecto formal do produto e tinha forte associação estilística com a moda contemporânea nos campos da pintura e escultura.
Muitos artistas importantes, na época, concebiam formas para uma grande variedade de objetos. A demanda crescente de mercadorias impulsionou a busca por novos métodos de manufatura e uma nova organização no trabalho para viabilizar custos produtivos.
Essas mudanças levaram a inovações na produção, visando cada vez mais a mecanização, a economia das matérias primas empregadas e a redução de tempos de serviço.
A associação da estética artesanal com o valor econômico, tradicional nesse período de transição para a manufatura industrializada, levou a uma identificação da classe burguesa com produtos excessivamente ornamentados e rebuscados.
Esses produtos eram vistos como um meio de ostentação de riqueza. A conseqüência da aplicação indiscriminada de ornamentos nos produtos industriais, com o propósito de satisfazer o gosto da burguesia, foi o distanciamento entre a forma do objeto e as características da tecnologia disponível para produzi-lo.
No início do século XX surge uma reação contrária à ornamentação e ao vínculo formal dos produtos industriais aos estilos artísticos. Na busca de formas estéticas e um fundamento lógico que correspondesse de modo mais adequado e expressivo à natureza tecnológica do mundo moderno, muitos designers voltaram-se para as máquinas, instrumentos e produtos da indústria como exemplos de suas teorias.
Por volta dos anos 20, uma “estética da máquina” havia surgido, enfatizando formas geométricas abstratas vinculadas a uma “filosofia funcionalista”.
Dentro desse contexto funcionalista, onde a beleza da forma de um produto dependia de sua utilidade e eficiência, ou seja, deveria ter relação direta com a função que o mesmo desempenharia, surge a preocupação com a progressiva industrialização dos objetos relativos à vida cotidiana.
Buscam-se produtos sem vínculos formais com o passado e que traduzam o espírito da Era Moderna, levando em conta os materiais e processos produtivos empregados. Com essa filosofia, o design começa a firmar-se como uma atividade projetual, relacionando a forma aos métodos de produção, desvinculando-se dos padrões de qualidade e gosto herdados da época artesanal (Argan, 1992).
Com o funcionalismo, o design passa a se preocupar com a viabilidade técnica dos produtos de um ponto de vista racional, pois torna-se primordial a otimização de materiais e processos produtivos.
A Bauhaus, escola de design fundada em 1919 na Alemanha, contribuiu de forma significativa para a definição do papel do designer, nesta fase de transição (Droste, 1994).
Implementada com a missão de promover a união entre a arte e a técnica, apresentou nos seus primeiros anos de funcionamento uma orientação mais individualista, valorizando a expressão pessoal do artista na concepção do produto.
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